• Fernanda Siqueira

Advogando no Japão: conheça história de quem enfrentou esse desafio



Em um momento em que a economia se torna cada vez mais globalizada, é necessário que tenhamos profissionais na área jurídica que consigam ver alguns problemas de forma macro, além da questão singular em cada país. Além disso, considerando que o Direito e, em consequência, a prática da advocacia, envolve reflexos da sociedade de um país, é fundamental a existência de pessoas que possam traduzir a sensibilidade cultural de diversos ambientes de forma satisfatória.

Conheça a história do advogado Roberto Carapeto, que relatou ao JOTA o que lhe motivou a advogar no Japão, que você confere a seguir:

A minha entrada no curso de Direito se deu por acaso. Ao fim do meu segundo grau, eu tinha mais interesse no aprendizado de línguas, no processo criativo (especialmente design de produtos e criação de peças publicitárias) e sistemas de computação. Prestei vestibular para diferentes cursos em diferentes universidades. Escolhi o curso de Direito para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) porque achei que as minhas capacidades acadêmicas poderiam ser bem aproveitados neste curso, a despeito de não possuir inicialmente uma paixão pela cadeira. Influenciou na escolha do Direito na UERJ a presença de um professor de sociologia no Colégio Pedro II, escola que frequentei, que era doutorando em Direito pela universidade. No final, passei nos vestibulares que prestei para Ciências da Computação e para Direito, e resolvi tentar os dois cursos.

Ao fim do meu primeiro ano, tive o prazer de assistir a uma palestra sobre propriedade intelectual e Creative Commons na UERJ, e isto redefiniu meu rumo. Este encontro com a propriedade intelectual determinou o início da minha paixão pelo Direito, e pelo Direito Empresarial Estratégico. Ao final do segundo ano de faculdade, passei a focar somente no Direito e comecei a pensar em como queria desenhar a minha carreira como advogado. Desde o inicio, o caráter internacional da propriedade intelectual me cativou. Logo, foi natural querer pensar em buscar um intercâmbio.

Esta busca me levou ao Japão. Naturalmente, o meu primeiro passo foi buscar os programas de intercâmbio que a Faculdade de Direito da UERJ possuía. À época, além de convênios para locais convencionais como Estados Unidos, França, Portugal e Alemanha, a faculdade possuía um programa de intercâmbio com o Japão. A ideia de ir para um local fora do lugar comum me encantou.

Dentro do convênio existente na universidade, havia 4 opções de faculdades para participar. Com a ajuda do orientador do intercâmbio, acabamos por escolher a única faculdade que era em Tóquio. Diante disto, ficou decidido o meu intercâmbio na Universidade de Waseda, considerada por muitos como a melhor universidade privada do Japão (rivalizada apenas pela Universade de Keio), com bolsa de estudos da JASSO (Japan Student Services Organization).

A experiência neste intercâmbio não poderia ter sido melhor.

A escolha de Tóquio também foi extremamente bem acertada. Durante o curto período em que estive aqui na primeira visita, pude ter contato com grandes professores da área, membros do governo japonês relacionados à propriedade intelectual e, com diversos profissionais da área. Durante o intercâmbio eu também aproveitei para fazer um estágio em um escritório local. Apesar de ser um escritório de pequeno porte, foi uma experiência muito gratificante, especialmente pela proximidade que pude ter com os profissionais e com os clientes durante a minha estadia.

Esta minha primeira experiência no Japão também me serviu para abrir os olhos para um problema que existe em nossas relações internacionais atuais. Hoje, a língua inglesa e o american way permeiam profundamente o ambiente internacional. Desta forma, os participantes de dinâmicas internacionais acabam por operar na língua inglesa e com base nos padrões básicos de cultura inspirados no ambiente de negócios americano.

Porém, desnecessário dizer que qualquer povo se sente mais confortável em ser tratado na sua própria cultura. Todo mundo gosta de sentir que está “jogando em casa”. Percebi durante o intercâmbio que apesar da profunda conexão histórica entre o Brasil e o Japão há ainda um sentimento muito grande de distância entre os dois países.

Percebi uma quantidade insuficiente de materiais e informações disponíveis em japonês, de forma atualizada, sobre as práticas jurídicas nacionais. Percebi também, que apesar de termos ilustres operadores do Direito que são descendentes de japoneses e são proficientes na língua japonesa, o número de profissionais jovens que combinam capacidade técnica e conhecimento cultural e linguístico é menor do que já foi outrora.

Considerando a experiência ótima que tive, foi natural desenvolver uma conexão profunda com o local. Somado a isto, percebi que o mercado japonês reconheceria o valor agregado de um profissional que pudesse operar esta conexão entre os dois países de forma eficiente. Acho que foi tão natural que voltei ao Brasil com um objetivo claro: queria retornar à região e queria desenvolver meu perfil de forma a ser um real especialista, não só no Direito Comparado entre os dois países, mas também nas relações entre eles. Para alcançar este objetivo, idealizei que a conclusão de um curso de pós-graduação aqui, obtendo um diploma tal como os locais obteriam, seria o melhor caminho. Para tal, retornei da minha primeira passagem com livros de Direito em japonês e vasto material didático para o aprofundamento da língua.

A minha segunda vinda ao Japão foi, logo, idealizada como um projeto de consolidação. Para tal, participei do programa seletivo para obtenção de uma bolsa provida pelo governo japonês, agraciada pelo MEXT, o Ministério da Educação, da Cultura, dos Esportes, da Ciência e da Tecnologia (Monbu-kagakushō) japonês. Uma vez selecionado, cerca de um ano após a conclusão do meu curso de graduação eu estava rumando novamente para o Japão. Desta vez para obtenção de um mestrado em Direito, uma pós-graduação stricto sensu inteiramente em japonês, na mesma universidade de antes, a Universidade de Waseda.

A experiência do mestrado foi bastante intensa. Realizar o mestrado em japonês foi uma experiência bastante complicada, mas elevou a minha habilidade na língua a um nível em que posso discutir assuntos jurídicos com meus pares locais e me abriu todo tipo de portas. A experiência foi tão boa que acabei decidindo ficar para realizar o doutorado também por aqui. Atualmente, além da prática jurídica, estou inscrito no programa de doutorado, sou assistente de ensino pra alguns professores e possuo outras responsabilidades de pesquisa dentro da faculdade. Além disso, eu possuo uma posição de consultor externo para uma empresa japonesa que lida com a administração de ativos de propriedade intelectual.

A minha relação com os membros do universo jurídico japonês é bastante boa. Claro, não é necessariamente fácil fazer amigos japoneses. A minha impressão é que os japoneses têm uma visão muito diferente do que é amizade. Neste sentido, é muito comum que a comunidade de expatriados façam amizade com outros estrangeiros alocados aqui. Porém, eu me propus a mergulhar inteiramente na cultura local.

Demorou para eu me acostumar com a ideia de amizade japonesa. Eu entendo que os japoneses, uma vez amigos, não sentem necessidade de se encontrar frequentemente e nem de “forçar” estes encontros. Em geral, sinto que eles se contentam com os encontros ocasionais que o destino os reserva. Para “auxiliar o destino”, é costumeiro encontros periódicos de pessoas que partilharam um pedaço da vida juntos.

Existem encontros de grupos de pessoas que entraram numa mesma empresa no mesmo ano, encontros de colegas de sala desde o jardim de infância, até a faculdade, passando por todos os níveis escolares. Para alguém que nunca participou da sociedade japonesa, é difícil participar destes eventos. Neste sentido, a minha experiência em uma pós-graduação japonesa se mostrou acertada, uma vez que agora eu faço parte, de certa forma oficial, da sociedade japonesa.

Diante disto, pude desenvolver laços de amizade profundos com alguns colegas de profissão daqui. Sou convidado para, inclusive, participar de seus círculos pessoais internos. Também pude vir a participar de clubes de atividades de algumas empresas. Principalmente, eu participo de um grupo que corre de kart 4 ou 5 vezes ao ano, com a participação de membros da indústria automobilística local e seus prestadores de serviço.

Nos últimos 2 anos, tenho expandido os ares para outros países asiáticos. Comecei os estudos de chinês e coreano, bem como realizo visitas frequentes aos dois países. Aproveito que é mais fácil chegar lá saindo de Tóquio do que do Brasil e acabo representando os interesses do escritório, além de auxiliar também nossos clientes na região.

Dentro deste cenário, sigo meu caminho para ser um advogado que consegue desenvolver uma ponte entre o Brasil e o Ásia, tanto do ponto de vista prático como no ponto de vista acadêmico. Tal como a informação no mundo virtual não se mantém estática, eu continuo nas idas e vindas além-mar. Hoje sou responsável pelo Asian desk do escritório Licks Advogados. (Com informações do JOTA).

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